08 setembro 2026

JEFF BECK JOHNNY DEPP

 


Jeff Beck e Johnny Depp: a parceria que deu origem ao álbum 18

Quando dois artistas de universos aparentemente diferentes se encontram, o resultado pode ser imprevisível. Quando um deles é Jeff Beck, um dos guitarristas mais inovadores e influentes da história do rock, e o outro é Johnny Depp, ator mundialmente famoso, mas também guitarrista e apaixonado por música, a expectativa naturalmente aumenta.

Foi dessa amizade e afinidade musical que nasceu 18, álbum colaborativo lançado em 15 de julho de 2022. O trabalho reúne 13 faixas e combina versões de músicas de diferentes épocas e estilos com duas composições originais de Johnny Depp.

Mais do que um simples projeto paralelo, 18 representa o encontro de dois músicos que encontraram na guitarra, no rock e na admiração mútua uma maneira de recuperar aquela sensação de liberdade e descoberta que acompanha os primeiros anos de quem se apaixona pela música.

Jeff Beck e Johnny Depp: uma amizade que virou música

Jeff Beck e Johnny Depp se conheceram em 2016 e rapidamente descobriram que tinham muito em comum. Além da paixão por carros, os dois compartilhavam uma profunda ligação com guitarras, rock e blues.

A amizade foi se transformando naturalmente em parceria musical. Depp já tinha experiência como guitarrista e havia participado de diversos projetos musicais, principalmente com o Hollywood Vampires, supergrupo formado ao lado de Alice Cooper e Joe Perry.

Jeff Beck, por sua vez, dispensava apresentações. Desde sua passagem pelo The Yardbirds, passando pelo Jeff Beck Group, suas experiências com jazz, blues, rock e música experimental, o guitarrista construiu uma carreira marcada pela busca constante por novos sons.

A química entre os dois foi tão forte que Beck percebeu que Depp não era simplesmente um ator famoso interessado em tocar guitarra. Havia ali um músico apaixonado, com ideias próprias e, principalmente, uma grande admiração pela história do rock.

Em 2019, os dois começaram efetivamente a trabalhar no projeto que posteriormente se transformaria em 18. As gravações se estenderam pelos três anos seguintes.

Por que o álbum se chama 18?

O título 18 não está relacionado à idade real dos músicos quando se conheceram.

Segundo Jeff Beck, quando ele e Depp começaram a tocar juntos, a parceria despertou nos dois uma espécie de espírito juvenil. Eles brincavam dizendo que se sentiam novamente com 18 anos.

A brincadeira acabou se transformando no título do álbum.

“Quando Johnny e eu começamos a tocar juntos, isso realmente despertou nosso espírito juvenil e nossa criatividade.”

A ideia também aparece na capa do disco. A ilustração mostra Jeff Beck e Johnny Depp representados como se fossem jovens de 18 anos, cada um segurando seu instrumento. O desenho foi criado por Sandra Beck, esposa de Jeff.

Assim, o número 18 representa muito mais do que uma idade: simboliza a sensação de redescoberta, liberdade e entusiasmo que os dois músicos experimentaram durante a parceria.

Um álbum de covers com duas composições de Johnny Depp

18 é essencialmente um álbum de releituras.

Das 13 faixas, 11 são versões de músicas de outros compositores e artistas, escolhidas por Beck e Depp justamente pela diversidade de referências. O repertório passa por nomes como John Lennon, The Beach Boys, Marvin Gaye, The Velvet Underground, The Everly Brothers, Janis Ian, Killing Joke, The Miracles e Davy Spillane.

As duas exceções são composições de Johnny Depp: “Sad Motherfuckin' Parade” e “This Is a Song for Miss Hedy Lamarr”.

A variedade é uma das características mais interessantes do disco. Em vez de montar um álbum baseado exclusivamente no blues ou no rock clássico, os dois buscaram músicas que permitissem explorar diferentes possibilidades sonoras.

Jeff Beck, naturalmente, é o grande responsável pelo elemento instrumental. Sua guitarra aparece como protagonista em diversos momentos, demonstrando por que ele continuava sendo considerado um dos grandes inovadores do instrumento.

Depp, por outro lado, participa como guitarrista, vocalista e compositor, mostrando uma faceta musical que muitas vezes ficou escondida atrás de sua enorme carreira cinematográfica.

As 13 faixas de 18

1. “Midnight Walker”

A abertura do álbum é uma composição de Davy Spillane, músico irlandês conhecido por seu trabalho com uilleann pipes.

A interpretação permite que Jeff Beck explore uma sonoridade diferente, misturando elementos celtas e rock. É uma escolha pouco óbvia para abrir o disco e já demonstra que 18 não pretende seguir uma fórmula convencional.

2. “The Death and Resurrection Show”

Originalmente gravada pelo Killing Joke, a música traz uma atmosfera muito mais pesada e sombria.

Aqui, Beck e Depp mergulham em uma sonoridade próxima do rock alternativo e industrial, mostrando que o repertório da dupla não estava limitado ao rock clássico.

3. “Time”

Composição associada a Dennis Wilson, dos Beach Boys, “Time” recebe uma interpretação mais intimista.

A música também revela uma das características do projeto: a preocupação de Beck e Depp em recuperar canções que fazem parte de suas referências pessoais, mas apresentá-las sob uma nova perspectiva.

4. “Sad Motherfuckin' Parade”

Esta é uma das duas composições originais de Johnny Depp.

A faixa apresenta um lado mais pessoal do ator e músico e funciona como uma demonstração de que sua participação no álbum vai muito além de simplesmente acompanhar Jeff Beck.

5. “Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder)”

Uma das grandes surpresas do álbum é a presença de duas músicas do clássico Pet Sounds, dos Beach Boys.

“Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder)” ganha uma leitura instrumental que permite a Jeff Beck explorar nuances, timbres e texturas de guitarra.

6. “This Is a Song for Miss Hedy Lamarr”

A segunda composição original de Johnny Depp é uma homenagem à atriz e inventora Hedy Lamarr.

A música foi particularmente importante para o nascimento do projeto. Depp apresentou a composição a Beck e pediu que o guitarrista participasse. Beck ficou impressionado com a canção e afirmou que ela foi uma das razões para propor a gravação de um álbum completo com Depp.

A participação de Beck na faixa é um dos grandes destaques instrumentais do disco.

7. “Caroline, No”

Mais uma música de Pet Sounds, composta por Brian Wilson e Tony Asher.

A escolha mostra o quanto os Beach Boys foram importantes para a formação musical de Beck e Depp. A interpretação é delicada e coloca a guitarra de Jeff Beck em primeiro plano.

8. “Ooo Baby Baby”

Clássico dos The Miracles, “Ooo Baby Baby” leva o álbum para o território da soul music.

É uma das faixas que melhor demonstra a amplitude das referências dos dois músicos, fugindo completamente da ideia de que 18 seria apenas um disco de rock.

9. “What's Going On”

O clássico de Marvin Gaye é outro momento importante do álbum.

A música carrega uma enorme tradição na música soul e, ao ser reinterpretada por Beck e Depp, ganha uma abordagem própria, mantendo o caráter emocional da composição.

10. “Venus in Furs”

Uma das escolhas mais ousadas do repertório é “Venus in Furs”, clássico do The Velvet Underground, composto por Lou Reed.

A faixa possui uma atmosfera sombria e hipnótica e permite que Jeff Beck explore novamente uma sonoridade distante do blues tradicional.

11. “Let It Be Me”

O clássico associado aos Everly Brothers traz uma mudança completa de clima.

É uma canção romântica que recebe uma interpretação mais contida, demonstrando novamente a preocupação da dupla em variar o repertório.

12. “Stars”

Composição da cantora e compositora Janis Ian, “Stars” é uma das faixas mais longas do álbum.

A música possui um caráter introspectivo e melancólico e se encaixa perfeitamente na proposta mais contemplativa apresentada em vários momentos de 18.

13. “Isolation”

O álbum termina com “Isolation”, composição de John Lennon originalmente lançada em 1970.

A música ganhou uma importância especial porque foi justamente uma das primeiras demonstrações públicas da parceria entre Beck e Depp. Durante a pandemia, em 2020, os dois divulgaram sua versão da canção, antecipando o projeto que mais tarde se transformaria no álbum 18.

Johnny Depp: muito mais do que um ator tocando guitarra

Uma das questões que cercaram o lançamento de 18 foi justamente a presença de Johnny Depp.

Para parte do público, sua participação poderia parecer apenas uma extensão de sua carreira cinematográfica. Porém, Depp já possuía uma longa relação com a música antes da parceria com Jeff Beck.

Além de tocar guitarra, ele havia participado de diversos projetos musicais e fazia parte do Hollywood Vampires, ao lado de Alice Cooper e Joe Perry.

Jeff Beck fez questão de defender as qualidades musicais de Depp. O guitarrista afirmou que não trabalhava havia muito tempo com alguém tão criativo e disse esperar que o público passasse a levá-lo a sério como músico.

E existe uma razão para essa defesa. Depp não aparece em 18 simplesmente como uma celebridade convidada. Ele participa das guitarras, canta, compõe e divide com Beck a responsabilidade pela direção artística do álbum.

Jeff Beck: o grande diferencial do projeto

Se Johnny Depp desperta curiosidade, Jeff Beck é o elemento que dá ao álbum sua identidade musical.

Ao longo de sua carreira, Beck sempre evitou permanecer preso a uma única fórmula. Desde os anos 1960, experimentou blues, rock, jazz, fusion, música eletrônica e diferentes possibilidades de utilização da guitarra.

Em 18, essa característica continua presente.

O guitarrista não transforma todas as músicas em simples veículos para seus solos. Em vários momentos, sua contribuição está nos timbres, nas texturas e na maneira como constrói os arranjos.

É justamente isso que torna algumas das melhores faixas do álbum interessantes: não se trata apenas de perguntar quem compôs originalmente cada música, mas de observar o que Beck faz com elas.

Uma parceria construída sobre referências musicais

O grande mérito de 18 está na variedade.

Davy Spillane, Killing Joke, Dennis Wilson, Beach Boys, The Miracles, Marvin Gaye, The Velvet Underground, Everly Brothers, Janis Ian e John Lennon são artistas muito diferentes entre si.

Mesmo assim, Beck e Depp conseguem reunir todas essas referências em um mesmo projeto.

O álbum funciona, portanto, como uma espécie de mapa das influências musicais dos dois. Não existe uma tentativa de estabelecer um único estilo dominante. O que existe é a vontade de tocar músicas que eles gostam e explorar novas possibilidades a partir delas.

A capa e o conceito visual

A capa de 18 é parte importante do conceito do álbum.

Criada por Sandra Beck, esposa de Jeff, a ilustração representa Jeff Beck e Johnny Depp como se fossem adolescentes de 18 anos.

A imagem conversa diretamente com o título e com a ideia de juventude recuperada pela música. Quando Beck e Depp começaram a trabalhar juntos, a criatividade e a diversão fizeram com que eles se sentissem novamente como jovens músicos descobrindo novas possibilidades.

É uma solução simples, mas bastante coerente com a proposta do disco.

O legado de 18

Lançado em 2022, 18 acabou sendo um projeto particularmente significativo na trajetória de Jeff Beck.

O álbum foi lançado em um momento em que Beck ainda estava na ativa e excursionando ao lado de Depp. A turnê europeia daquele período levou a dupla a diversos palcos, com Depp participando como convidado especial.

Poucos meses depois, porém, a história da parceria ganharia um significado diferente.

Jeff Beck morreu em 10 de janeiro de 2023, aos 78 anos, vítima de meningite bacteriana.

Dessa maneira, 18 acabou se tornando o último álbum de estúdio lançado por Jeff Beck em vida. Isso dá ao disco um peso histórico ainda maior dentro de sua extraordinária discografia.

Não é necessariamente o trabalho mais representativo de toda a carreira do guitarrista — e recebeu avaliações bastante divididas da crítica na época do lançamento.

Mas é um registro importante de um momento específico: o encontro entre um dos maiores guitarristas da história do rock e um ator que encontrou na música uma de suas grandes paixões.

Jeff Beck e Johnny Depp: uma parceria que ficou registrada na história do rock

18 talvez seja um álbum irregular, e certamente não substitui os trabalhos fundamentais da carreira de Jeff Beck. Mas seria injusto analisá-lo apenas pela fama de Johnny Depp ou pelas controvérsias que cercavam o ator no período de seu lançamento.

O disco nasceu de uma amizade real e de uma afinidade musical que começou anos antes de sua chegada às lojas.

Jeff Beck encontrou em Depp um parceiro criativo disposto a experimentar, enquanto Depp teve a oportunidade de trabalhar lado a lado com um dos maiores guitarristas de todos os tempos.

O resultado é um álbum de 13 faixas que atravessa diferentes décadas e estilos, reunindo covers de artistas fundamentais e duas composições de Depp.

Mais importante do que tentar definir 18 como um disco de rock, blues ou pop é perceber que ele representa aquilo que Jeff Beck sempre buscou durante sua carreira: liberdade para tocar, experimentar e seguir a música para onde ela quiser levar.

E talvez seja justamente esse o melhor significado do título.

Aos 18 anos, a música ainda é descoberta.

Para Jeff Beck e Johnny Depp, 18 foi a oportunidade de redescobri-la juntos.




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