23 novembro 2022

ROGER WATERS This Is Not A Dril

Roger Waters recria Confortably Numb no contexto do mundo atual

Roger Waters recria “Comfortably Numb” e dá novo significado a um clássico do Pink Floyd

Uma nova leitura para um dos maiores clássicos de “The Wall” transforma “Comfortably Numb” em um poderoso manifesto sobre o mundo atual

Poucas músicas na história do rock conseguiram atravessar gerações com a mesma força de “Comfortably Numb”, clássico do álbum The Wall, lançado pelo Pink Floyd em 1979. Composta por Roger Waters e David Gilmour, a canção tornou-se uma das obras mais emblemáticas da banda, especialmente pela combinação entre a narrativa dramática, os vocais marcantes e os memoráveis solos de guitarra de Gilmour.

Décadas depois de seu lançamento, Roger Waters decidiu revisitar a música e apresentar uma interpretação completamente diferente. Em 2022, o músico lançou uma nova versão de “Comfortably Numb”, concebida originalmente para abrir os shows da turnê This Is Not a Drill.

Mais do que simplesmente regravar um clássico, Waters desmontou alguns dos elementos que fizeram da versão original uma referência do rock e reconstruiu a canção sob uma perspectiva mais sombria, intimista e contemporânea.

Uma “Comfortably Numb” para outros tempos

A nova versão nasceu durante o período de isolamento provocado pela pandemia. Segundo Waters, naquele momento ele começou a trabalhar em uma nova abordagem para a música, alterando sua tonalidade e buscando uma atmosfera mais obscura.

A canção foi transportada para lá menor, ganhando uma sonoridade mais melancólica e contemplativa. Outra mudança fundamental foi a decisão de retirar os tradicionais solos de guitarra que, na versão do Pink Floyd, estão entre os momentos mais reconhecidos da música.

A ausência da guitarra de David Gilmour poderia parecer, à primeira vista, uma escolha arriscada. Afinal, os solos de “Comfortably Numb” estão entre os mais celebrados da história do rock.

Mas é justamente aí que está a força da recriação.

Waters não tentou competir com a versão original. Em vez disso, procurou revelar uma outra personalidade da composição.

Quando o silêncio fala mais alto que a guitarra

É difícil imaginar “Comfortably Numb” sem aquele solo de guitarra que se tornou praticamente uma assinatura do Pink Floyd. Porém, na releitura de Roger Waters, a ausência desse elemento abre espaço para que a letra e a interpretação vocal assumam protagonismo.

A nova abordagem é mais lenta, atmosférica e sombria. A sensação de distanciamento presente na letra original ganha uma dimensão ainda mais profunda.

Em vez de transportar o ouvinte para o universo conceitual de The Wall, Waters parece trazer “Comfortably Numb” para um mundo marcado por isolamento, conflitos, polarização, manipulação da informação e uma sensação coletiva de anestesia diante dos acontecimentos.

É uma música conhecida, mas que parece ter envelhecido junto com o mundo.

E talvez seja justamente essa a razão pela qual ela continua funcionando tão bem.

Shanay Johnson acrescenta uma nova dimensão à música

Um dos grandes destaques da nova gravação é a participação da cantora Shanay Johnson, cuja presença vocal contribui para criar uma atmosfera diferente daquela consagrada pelo Pink Floyd.

Em vez de reproduzir a fórmula clássica, Waters utiliza a voz feminina para construir uma espécie de diálogo emocional com a música.

O resultado é surpreendente.

Sem depender dos solos de guitarra, a canção ganha uma dimensão quase cinematográfica. A interpretação vocal cria tensão e delicadeza ao mesmo tempo, reforçando a sensação de fragilidade e desconforto que sempre esteve presente em “Comfortably Numb”.

É como se Waters estivesse dizendo ao ouvinte: você já conhece essa música, mas talvez nunca tenha ouvido exatamente dessa maneira.

De encerramento de shows a abertura de uma nova experiência

Existe algo simbolicamente poderoso na decisão de Roger Waters de utilizar essa nova versão para abrir a turnê This Is Not a Drill.

Durante anos, “Comfortably Numb” esteve associada a grandes momentos das apresentações do Pink Floyd e também da carreira solo de Waters. A música frequentemente aparecia como um dos pontos altos dos espetáculos.

Transformá-la em uma espécie de porta de entrada para um novo show muda completamente sua função.

É como abrir uma apresentação perguntando ao público se ele está realmente acordado.

A escolha também combina perfeitamente com a personalidade artística de Roger Waters. Desde os anos 1970, o músico utiliza suas obras para discutir guerra, poder, alienação, autoritarismo, desigualdade e comportamento social.

Assim como The Wall utilizava uma história pessoal para construir uma crítica muito maior à sociedade, a nova “Comfortably Numb” parece interessada em provocar novamente essa reflexão.

O clássico permanece, mas a mensagem muda

Uma das maiores qualidades de uma grande obra de arte é a capacidade de adquirir novos significados com o passar do tempo.

Quando “Comfortably Numb” apareceu em 1979, fazia parte de uma história conceitual sobre isolamento, trauma, fama, alienação e construção de barreiras emocionais.

Mais de quatro décadas depois, esses temas continuam assustadoramente atuais.

A diferença é que agora Roger Waters interpreta a música a partir de outro momento histórico.

O mundo mudou. A tecnologia mudou. A maneira como consumimos informação mudou. As guerras continuam existindo, as divisões políticas se aprofundaram e a sociedade passou a conviver diariamente com uma quantidade gigantesca de informações.

Nesse cenário, a ideia de estar “confortavelmente anestesiado” ganhou novas possibilidades de interpretação.

Estamos realmente prestando atenção ao que acontece ao nosso redor?

Ou simplesmente nos acostumamos a assistir tudo através de uma tela?

Roger Waters continua provocando

Roger Waters nunca foi um artista preocupado em agradar a todos.

Muito pelo contrário.

Desde os tempos do Pink Floyd, sua obra está profundamente ligada à crítica social e política. Em sua carreira solo, essa característica tornou-se ainda mais evidente.

Por isso, seus shows não são apenas apresentações musicais. São também espetáculos visuais e conceituais nos quais o público é constantemente confrontado com questões políticas e sociais.

E Waters deixa isso bastante claro.

Para quem vai a um espetáculo seu esperando apenas ouvir os grandes sucessos do Pink Floyd sem qualquer posicionamento político, o músico tem um recado bastante direto.

Em outras palavras: se você quer apenas nostalgia, talvez esse não seja o espetáculo ideal.

Mas se você está disposto a ouvir as músicas e também refletir sobre aquilo que elas estão dizendo, a experiência pode ser muito mais intensa.

Uma nova “Comfortably Numb” para um mundo cada vez mais inquieto

O grande mérito dessa recriação está justamente em não tentar reproduzir o passado.

Roger Waters poderia simplesmente tocar “Comfortably Numb” exatamente como o público espera. Poderia manter os solos de guitarra, a estrutura tradicional e todos os elementos que transformaram a música em um clássico.

Ele escolheu fazer o contrário.

Reinventou a canção.

Tornou-a mais sombria, retirou elementos fundamentais da versão original e criou espaço para que outra interpretação surgisse.

É uma atitude que exige coragem artística.

Porque mexer em uma música considerada intocável é sempre um risco. Mas grandes artistas muitas vezes são reconhecidos justamente por sua capacidade de desafiar aquilo que eles mesmos ajudaram a construir.

“Comfortably Numb 2022” não pretende substituir a versão do Pink Floyd.

E nem poderia.

Ela existe para dialogar com ela.

É a mesma composição, mas vista através de outro momento da história.

E talvez seja justamente essa a grande mensagem de Roger Waters: uma música pode permanecer a mesma, mas nós nunca somos exatamente os mesmos quando voltamos a ouvi-la.

O legado de “Comfortably Numb”

Poucas músicas conseguem sobreviver a mais de quatro décadas mantendo a capacidade de provocar emoções tão diferentes.

“Comfortably Numb” conseguiu.

A versão original continua sendo uma das grandes obras do Pink Floyd e um dos momentos mais marcantes da guitarra de David Gilmour. A recriação de Roger Waters, por outro lado, mostra que a música ainda pode ser reinterpretada e adquirir novos significados.

É uma prova de que os grandes clássicos não pertencem apenas ao passado.

Eles podem voltar ao presente.

E, quando isso acontece pelas mãos de um artista disposto a correr riscos, podem até mesmo nos obrigar a enxergar novamente aquilo que acreditávamos conhecer.

No fim das contas, talvez essa seja a verdadeira força de “Comfortably Numb”.

Ela fala sobre estar anestesiado.

Roger Waters, décadas depois, continua tentando nos acordar.


Nenhum comentário: